Precisamos construir para preencher o vazio de nossos corações
Precisamos estudar, trabalhar, ler, poetizar
E nosso sonho é estar de coração afinado às nossas canções
Até que delas e de tudo a gente passe a cansar
Cantamos e falamos sem saber bem o que queremos
Quem dita o que a gente quer são outras pessoas
A gente é que acha que tem vontade própria, e vivemos
A fazer o que achamos que são coisas boas
A tentar nos completar, nos encaixar em diversos padrões
Ter carro, casa, cachorro, mulher
Pra quê isso? São sempre as mesmas emoções
A vida será somente isso? Há quem diga que é
As nossas vidas vão mudando ao sabor do vento
Às vezes revolto, às vezes calmo, às vezes almo
Segurar as minhas roupas que estavam no varal, eu tento
Enquanto mais um louco ou sábio me lê um salmo
Deixo todos os dias minhas preces em barquinhos de papel
No rio dos pensamentos, que vive em cheia
Que nos traz respostas só de vez em quando, direto do céu
E por vezes tento uma pepita de ouro no rio com minha bateia
É tudo vazio e sem valor quando se está como estou
Me dá um presente, abro um sorriso
Mas o que valem sempre mais são as palavras que você falou
Se confia em mim e em tudo que eu digo
Palavras são como caixinhas que carregam algum valor
Pode ser brita, pode ser ouro
Depende da sinceridade que você ali por
Ela pode ser também de papel ou revestida em couro
Se você não põe as palavras na caixa da sinceridade
Elas correm o risco de voarem com o vento
Vento que desvaloriza e tira a validade
Do que poderia ser dito com algum acento
E a cerimônia e ritual que você faz para me entregar alguma palavra
Sempre mostra o valor do documento
É como um escultor que um trabalho com cuidado lavra
Que se demora nos detalhes, valorizando o ornamento
É preciso valorizar a beleza e também o prazer
Mas e nós, feios e desconcertados?
O que é que nós vamos fazer?
Somos esquecidos e à vala jogados
Que mundo esquisito em que não existe igualdade
Deus ainda não explicou nada disso pra gente
Este mundo é feito de uma complexidade
Que ninguém explica e ninguém entende
Seria justo um ser belo e rico e cheio de dons
Enquanto outros são feios, pobres, desajeitados?
Uns têm soberba voz, cantam majestosamente, são bons
Já nós mal conseguimos falar, somos renegados
Não fico em lamentações simplesmente por dó de mim
Olho é para o mundo e não sei mais se existe justiça
Não sei porque Deus inventou um mundo tão triste assim
Tenho toda certeza que não foi por preguiça
Podemos pensar diferente deste modo que estou pensando
Podemos achar que as desigualdades são tempero para o mundo
Senão nada teria graça e viveríamos como robôs, executando
Tarefas que Deus nos legaria de segundo a segundo
É porque somos diferentes que existe o feio e belo
Que passamos a ter olhares diferentes para coisas desiguais
É por isso que há os que ao invés de ter casa têm castelo
Mas vou te falar que um casebre eu admiro bem mais
Se precisasse eu viveria na pobreza só por prazer
O que eu preciso muito é de um computador onde escrever
Fora isso em qualquer lugar você poderia me ver
A minha vida tem se resumido a isso: poesia e sobreviver
Eu não ligo pra se a comida é cara ou não
Pra mim o que importa é ter o sal pra eu por
Gosto de tempero, talvez manjericão
Coentro, noz moscada, e uma pimentinha pra dar sabor
Ô Brasil sofrido, mas que sabe fazer arte
Faz-se samba, comida boa, capoeira esperta
Faz-se de tudo, também ciência por toda parte
E já vi até quem faz o rock n’ roll e poesia concreta
sábado, 18 de julho de 2009
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